Travessia do Estreito de Gibraltar, o recorde mundial 58 anos depois

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Faz este mês 58 anos que fiz a melhor marca mundial na Travessia do Estreito de Gibraltar em 3 horas e 4 minutos. Este recorde teve a duração de 45 anos.

A longevidade é normalmente sinónimo de efeméride. Fazê-lo em relação a alguém que está vivo transforma a efeméride em acontecimento e essa personagem continua viva, igual a si própria, cheia de vigor e energia e ainda a fazer alguma atividade física, como tenho demonstrado até aos dias de hoje. Tive uma pequena paragem derivado aos ouvidos, efeitos de muita natação, mas na sexta-feira já vou ao especialista.

Os tampões deixaram infiltrar alguma água, mas felizmente sinto-me feliz por tudo quanto vou fazendo de atividade física. Quero, no decorrer deste mês de setembro, festejar uma realidade que no dia 17 de 1962 perfaz 58 anos que atravessei a nado o Estreito de Gibraltar.

Já não sou o detentor do melhor tempo da travessia, mas foi preciso esperar 45 anos. Aconteceu em julho de 2007, o alemão Christof Wandratsch destronou-me, percorrendo a distância em 2 horas e 51 minutos, conforme a crónica de uma historiadora e ex-campeã, única senhora a fazer dupla travessia do Estreito Montserrat-Tresserras i Dou e delegada da FINA e responsável pelas travessias que se realizam em Gibraltar. Escreveu o enorme volume “Nadando no Estreito, suas origens e sua história”, onde destacava como lebre nos treinos o Batista Pereira.

Publicou todas as provas de treino, entre elas as que mais se destacava derivado ás diferenças das marcas, Alhandra-Lisboa, Praça do Comércio, Farol da Boa Nova-Ribeira do Porto, Lisboa-Cascais, Cascais-Costa da Caparica, entre outras que executei sozinho com a colaboração do meu amigo e companheiro Duque da Ribeira, como por exemplo Entre-os-Rios e Ribeira do Porto, e muitas mais.

Em 1961, na minha primeira tentativa da Travessia do Estreito de Gibraltar, não a concretizei com êxito. Mesmo com as marroquinas à vista, fui obrigado a desistir com dores nos ombros.

Em 1963, no meu horizonte, estava a prova dos meus sonhos Capri-Nápoles, uma competição que contava para o Campeonato do Mundo de longa distância, de 36km. A ela concorreram nadadores da Europa, da Ásia, da América do Sul e Norte e África. Era um sonho participar e era, pela primeira vez, naquele ano que um português o faria. Coube-me essa honra e o “palmarés” foi devidamente realçado na imprensa local, tendo o meu feito em Gibraltar sido muito comentado.

Aconteceu que, antes de aqui chegar, formou-se uma comissão de angariação de fundos com vista à deslocação. Apesar do cônsul de Nápoles ter tudo em ordem, desde a inscrição até ao hotel, a prova em Itália teve um imprevisto no processo de deslocação para lá.

Em consequência dos encargos, a viagem não foi feita de avião, o dinheiro não chegava para toda a delegação, constituída pelo diretor-acionista, pelo treinador Armando Mendes e pelo jornalista do jornal do clube, Mimoso Freitas. 

A viagem acabou por se fazer de automóvel. Muito antes da partida, o meu amigo Dr. José Maria Antunes, meu médico e Presidente da FPN, avisou-me que era uma aventura fazer tantos quilómetros dentro dum carro, com finalidade de competir numa prova de natação, tão violenta. Na altura, não pensava em semelhante coisa, queria era participar. Cheguei com três dias de viagem, onde tive cinco dias para me recompor ao ambiente.

No dia da competição, o tempo não estava agradável, ventos e chuva, e partidas em conjunto entre amadores e profissionais, eu como amador.

Por sorteio, calhou-me o mesmo guia que tinha levado o nadador à vitória na época anterior.

Com mar encapelado, partiram primeiro as senhoras. Com ventos fortes e barcos de apoio todos juntos, era um autêntico rebuliço no momento da partida. Após o sinal de partida, fiquei entre duas embarcações, que me deixou mossa. Parei, consultei o meu treinador e mandou-me seguir depois de nadar junto a um dos favoritos a vencer a prova. Voltei a parar, avisei o treinador de umas fortes dores nos rins, local onde tinha sido atingido.

Com três horas e quarenta e cinco minutos de prova, avisei o meu treinador que era difícil prosseguir naquelas condições, mesmo assim vi passar por mim alguns concorrentes, continuei com novo arranque, mas não era possível.

Sempre fui um homem de luta. Para esta página negra, marcada pela infelicidade, contribui também para a minha última participação em competições desportivas oficiais.

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