Sereia de mallot verde nas águas da memória

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Neste tempo de pandemia que nos obriga a ficar em casa, serviu para fazer uma revisão ao meu baú de recordações.

Quando desfilava os vários dossiês encontrei um que não era demais relembrar a todos os amantes de águas abertas, e não só a todos os que se interessam por histórias antigas ligadas à modalidade, nos tempos que nunca se pensava em piscinas.

Como se sabe, o GCP foi o pioneiro como clube no ensino da prática de nadar, nos anos 20 do século passado, na Trafaria.

Estela de Carvalho aprendeu muito nova no GCP, até que aos 16 anos começou a dar nas vistas. Pensou em mudar de clube e representar o SAD.

Essa mudança, dá-se derivado aos seus dirigentes e técnicos que não acreditaram nas suas reais capacidades físicas e técnicas para participar na prova rainha da natação portuguesa, que era a travessia do Tejo entre Trafaria e Pedrouços.

Esta mudança foi em 1922 quando se filiou como nadadora no SAD. Nesta instituição esteve como praticante durante três épocas.

Os seus reais valores evidenciaram-se com a conquista de vários títulos de campeã regional e nacional.

Em 1924, nos campeonatos nacionais realizados na Doca de Belém, venceu os títulos de campeão nacional na prova de 100 livres com a marca de 2.46.00 e nos 200 bruços de 5.05.15. Consagrou-se campeã de fundo 12km entre Xabregas e Pedrouços, sendo a primeira única que completou, todas as concorrentes adversárias ficaram pelo caminho.

Em 1925, voltou a estar em grande evidência na grande Travessia da Lisboa entre Xabregas e Pedrouços, sendo a única mulher a completar em 2h35.30.

Filhas de pai português e mãe espanhola, nasceu em 1906 e em 1927 transformou-se como primeira campeã do Sporting em natação. Que famosa ficou.

No ano anterior, na travessia do Porto esteve à beira de ganhar a todos os concorrentes homens e só perdeu para um deles.

Nos meses depois, em entrevista ao jornal Eco Sports, com mágoa, expressou que era a única dor não a deixarem concretizar o seu sonho de fazer a travessia da mancha por ser mulher.

“Vou começando a ter receio de que me critiquem por com esta idade, 21 anos, nadar ainda e tanto nadar. Também me criticaram por tudo e não me admiro que tal suceda”, afirmou à altura a atleta.

Criticavam sobretudo pela ousadia do seu maillot verde com que nadava, de leão ao peito, e foi com ele que voltou a ganhar a travessia do Tejo à frente de todos os homens.

No ano seguinte deu por terminado a sua época e ficou no esquecimento que agora recordamos.

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