Reality Show

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As recentes eleições Presidenciais Norte Americanas ficaram indelevelmente marcadas pelo uso massivo de Bots para influenciar a opinião pública. Estima-se que cerca de 20% de todos os tweets publicados acerca destas eleições tenham origem em bots, ou seja, contas automáticas geradas por aplicações informáticas e que ficticiamente transmitem uma imagem popularidade ou adesão da opinião pública às teses de um ou outro candidato visando condicionar a percepção da realidade e contribuindo de forma expressiva para aquilo que já se começou a chamar a verdade alternativa ou Pós-verdade. Ou seja a adequação do discurso aos factos passou a ser acessório primando o discurso ilusório sobre a realidade.

Isto é uma tendência crescente, com a qual nos teremos necessariamente de habituar a viver, mas no fundo não é mais do que extremar a prática comum de muitas das interações estabelecidas, principalmente mas não só, nas redes sociais, colocando uma máquina a debitar opiniões cegas e obviamente parciais. É atualmente vulgar as posições serem definidas de forma absoluta sem qualquer espaço para debate ou compromisso, confundindo frequentemente diversidade de opinião com divergência pessoal. Ao ignorar a diversidade institui-se a verdade como património auto-gerado originando clivagem em vez de conciliação, isolamento em vez de proximidade. O que conta são os argumentos fundamentadores, independentemente do seu valor ou realidade, debitados de forma surda aos da contraparte. No fundo a questão que separava na Grécia Antiga os Sofistas dos Filósofos.

Esta troca da Dialética pela Retórica conduz a uma total falta de abertura para os argumentos do outro, independentemente do seu mérito ou contributo, leva a um entrincheiramento de cariz partidário das posições e a um ostracizar de todos aqueles que eventualmente se atrevam a ter uma visão mais crítica ou desalinhada. Dir-se-ia que a capacidade para acolher o outro e a sua condição se perdeu por completo numa visão empobrecida de pensamento único em que a divergência é quase delito de opinião. Assim fecha-se o espaço para o debate em troca do elogio correligionário e troca-se a riqueza do diálogo pela escassez do monólogo.

Curiosamente, e ao contrário do que é senso comum, não é na divergência e no confronto que se promove o desenvolvimento sendo disso testemunho o pós IIª Guerra Mundial, a fase de maior e mais rápido desenvolvimento da Humanidade, precisamente pela capacidade cooperar entre as várias Nações, de que são exemplo a ONU e a União Europeia, e pela necessidade de chegar a soluções de compromisso que conciliam muitas vezes legítimas posições divergentes.

A divergência é não apenas legítima como enriquecedora desde que esta não esqueça o chão comum em que se sustenta, nomeadamente as modalidades que nos fazem andar aqui. É evidente que todos os projectos querem ter sucesso, independentemente do que isso significar para cada um deles, mas este deve ser obtido de forma positiva, atingindo os nossos fins, se possível facilitando o sucesso dos projectos vizinhos de modo a fortalecer a modalidade, a melhorar a sua imagem e implantação, e a aumentar o número de praticantes.

Dizia o Einstein que a definição de loucura é repetir as mesmas coisas à espera de resultados diferentes, nesta perspetiva, e passado que está o tempo para projectar, é essencial implementar no início deste novo Ciclo Olímpico um modelo que, adequando a realidade dos vários agentes, possa promover a mudança que vise resultados diversos.

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