Outra vez Exame Médico Desportivo! Porquê e para quê?

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O Exame Médico Desportivo consiste num conjunto de avaliações a realizar aos atletas para aferir a aptidão para a prática desportiva. O objetivo primordial é a identificação de condições de saúde que possam ter risco significativo de morte súbita, como as doenças do coração. No entanto, também o despiste de outros problemas que acarretem risco de lesão/problemas de saúde devem ser acautelados.

O exame médico desportivo é obrigatório para agentes desportivos (atletas e árbitros) que se pretendam filiar em federações desportivas. Em Portugal não é obrigatório realizar exame médico desportivo para a prática de atividade física não filiada (como por exemplo para frequentar ginásios, participar em corridas) ainda que isso não exclua a importância de uma avaliação médica antecipada. Este deve ser feito com periodicidade anual. Ainda que não seja exigido pela lei, trata-se de um exame clinicamente recomendável para todos os desportistas, devendo ser efetuado antes da prática mais regular de um desporto, mesmo que seja só desporto de fim de semana ou “jogos entre solteiros e casados”.

Existam centros especializados para a realização do exame médico desportivo. No entanto, qualquer médico pode realizá-lo, desde que se sinta habilitado a atestar a aptidão para a prática desportiva. Nos atletas de alto rendimento e nos casos de sobreclassificação do atleta para além do escalão imediatamente superior à sua idade, o exame médico desportivo deve ser realizado nos Centros de Medicina Desportiva.

Em Portugal, o exame médico desportivo inclui a realização da história clínica, do exame físico e do eletrocardiograma (ECG), num total de 13 itens de avaliação. A primeira parte diz respeito à identificação de eventuais situações de risco para a prática desportiva e é de autopreenchimento pelo atleta (ou o seu representante legal), que assina sob compromisso de honra a veracidade das declarações. A segunda parte é preenchida pelo médico e foca os dados da história clínica do atleta, nomeadamente antecedentes familiares, pessoais e desportivos. Nesta fase do exame assumem especial importância a existência de casos de morte súbita na família e se o atleta tem sintomas como palpitações (sensação de sentir o coração bater forte), síncope (desmaio ou sensação de desmaio), dor no peito ou falta de ar. Estas podem levantar a suspeita de doenças que eventualmente coloquem o atleta em risco e possam contraindicar a prática desportiva.

No exame físico é avaliada a constituição física de cada atleta e a compatibilidade dos resultados com a idade, sexo e desporto praticado. A avaliação da pele, embora pareça de menor importância, pode levar à deteção de patologias que impedem a prática desportiva. Doenças de pele infectocontagiosas, suscetíveis de transmissão por contacto direto contraindicam a prática desportiva temporariamente.

Em termos oftalmológicos, atletas com défices visuais significativos ou com visão nula num dos olhos têm que usar protetores oculares para a prática de desportos de risco (basebol, hóquei, artes marciais), pelo que são aptos com essa restrição. No exame de otorrinolaringologia, será avaliada a audição e também a presença de doenças dos seios peri nasais e dos ouvidos que possam contraindicar atividades subaquáticas ou aéreas.

O exame médico desportivo deve ser minucioso e prestar atenção a todos os pormenores. O exame da boca e dente, por exemplo, permite detetar a presença de cáries não tratadas, uma vez que a presença de focos infeciosos pode impedir a normal recuperação de lesões musculares. No exame abdominal, a deteção de um aumento do tamanho do baço ou fígado contraindica a prática de desportos de contato. Estes e outros exemplos podem ser dados para perceber a importância de um atleta ser avaliado cuidadosamente por um médico preparado para a deteção de pequenos sinais e sintomas que podem salvar a vida do atleta.

Em suma, sempre que o clube, federação ou qualquer outra entidade lhe exigir a apresentação do exame médico desportivo atualizado antes de pensar “Outra vez exame médico desportivo? Que chatice”, tente responder às duas questões iniciais: Porquê e para quê? A resposta será a mesma: Para salvar a vida de atletas e proteger a saúde de todos!

Ana Carla Guimarães

Mestrado integrado em medicina na universidade do Minho

Pós-graduação em medicina desportiva na FMUP

Interna medicina geral e familiar

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