O porco e a galinha

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Temos vivido recentemente, fruto de um conjunto de resultados desportivos de nível internacional ao qual o título europeu de futebol masculino veio apenas conferir ainda mais visibilidade, um crescendo na auto-estima nacional e um envolvimento geral da população portuguesa na celebração destes feito, de todo inédita. Estes resultados conferem, a um povo que nos últimos anos muito tem sofrido, das mais variados formas, restrições à sua vida quotidiana, uma sensação de poder quase ilimitado. Dir-se-ia que estamos investidos numa espécie de estado sobre humano, uma espécie de super-homem nietschiano mas aplicado ao desporto, de modo que quase nos atrevemos a dizer que se os Deuses praticassem desporto, que Portugal lhes ganhava!

Engraçado é também ver que mesmo os mais desatentos ao fenómeno desportivo despertaram para para um conjunto de modalidades de menor visibilidade mediática que, fruto de projectos de desenvolvimento desportivo já implantados há alguns anos que a muitos passaram despercebidos, e que obtiveram agora alguns resultados de referência, que mais não são que o corolário desse trabalho, e se tornaram verdadeiros “adeptos” de ocasião das mesmas, mormente quando foi para partilhar nas redes sociais os resultados obtidos e a injustiça da sua não condecoração por Sua Excelência o Sr. Presidente da República. O povo envolveu-se e sentiu-se na pele daqueles atletas que, tendo obtido o sucesso, não receberam a condecoração. Bem que somos os super-homens e não admitimos injustiças!

Mais a sério será dentro de um mês em que, se os resultados das mais diversas modalidades não forem de acordo com as expectativas agora criadas, e dificilmente o serão perante tamanha euforia, veremos alguns de aqueles que agora nos elevam aos mais altos píncaros a afirmar sem reservas que afinal não passamos de uns Aquiles a quem a fragilidade do tendão conduziu à tragédia e nos remeteremos de novo ao papel de meros mortais, finitos e frágeis.

Ainda assim é lindo ver as pessoas envolvidas com o desporto, traz visibilidade, potencía apoios e novos praticantes, atrai público e aproxima os pais.

O Adam Krikorian, seleccionador feminino dos Estados Unidos, campeão Olímpico em título, cita uma parábola acerca da galinha e do porco que se queriam lançar num negócio de restauração, sonho que terminou quando o porco perguntou o nome que haveriam de dar ao restaurante e a galinha achou boa ideia chamar-lhe “Ovos com Bacon”. O negócio era injusto, a galinha estava envolvida, mas o porco estava comprometido!

A FPN lançou este ano um projecto pioneiro em Portugal para o Pólo Aquático, uma equipa Nacional Sub 13, que se tem concentrado regularmente em vários pontos do País, visando, para além da identificação dos nossos potenciais internacionais num futuro mais ou menos distante, proporcionar-lhes um programa de grande qualidade no qual, para além do desenvolvimento das suas capacidades individuais para o jogo, começam a ter contacto com um primeiro modelo de jogo das futuras Selecções Nacionais. Simultaneamente a isto decorre um processo de formação de treinadores que se desenvolve tanto presencialmente durante as concentrações das equipas como à distância, através de uma plataforma on-line, através da qual todos os treinadores que se interessem podem ter acesso aos treinos que os atletas do programa realizam. Ou seja, não só faz a formação de treinadores e atletas do programa mas também o faz dos treinadores e seus atletas que o quiserem fazer, mesmo que fora do programa.

O programa tem sobrevivido com inúmeros percalços superados apenas pelo prazer que os miúdos têm em participar, pela paixão dos treinadores envolvidos e pela persistência dos Pais em proporcionarem aos seus filhos uma experiência única de formação desportiva. O grande mérito reside, por um lado no mentor do projecto, Paul Metz, Coordenador Técnico Nacional, que conseguiu comprometer todos os agentes do processo, Pais, treinadores, autarquias, clubes e atletas, e por outro lado na evolução e aceitação que o projecto conquistou junto dos atletas que é tão flagrante que, estou certo, se assim não fosse já teria havido inúmeras desistências. Eventualmente dir-me-ão que este tipo de projectos há-os aí nas mais diversas modalidades e que não é grande novidade, mas de facto não o é nas outras modalidades porque no Pólo Aquático Português é inédito e principalmente gratificante, pelo que vimos estes miúdos evoluir. Na próxima época antecipa-se o alargamento deste programa para os sub 15 e nas épocas subsequentes nos escalões acima, até aos sub 19.

Perante um processo eleitoral que se antevê sem grandes sobressaltos para a actual Direcção, e que poderá possibilitar a continuidade de um projecto de formação de desportistas e Treinadores  num horizonte temporal de 5 anos, o que poderá bem ser o factor determinante para quebrar a cultura e hábitos instalados na modalidade, e que ainda que de forma independente a este programa, já se está a materializar com a concentração semanal da Selecção Nacional Masculina, e abrir o caminho para alcançar os objectivos a que, desde início, nos propusemos, qualificar regularmente as nossas Selecções para as Fases Finais dos Campeonatos da Europa.

Esta visão, eventualmente imbuída ainda de uma auto-estima sobre-elevada, é evidentemente optimista, mas para aqueles que agora estão a capitalizar com resultados desportivos os investimento há muito feitos a pôr em marcha modelos de desenvolvimento desportivo das suas modalidades, não é nenhuma novidade. Do que necessitamos mesmo é de haver muito mais agentes comprometidos e que os envolvidos sejam apenas os adeptos.

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