O “Alexandre Herculano” e o “Rodrigues de Freitas” na memória do tempo

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Em época de centenário da Associação Natação do Norte de Portugal (ANNP), antiga Associação de Natação do Porto, trazemos à colação algumas curiosidades interessantes desta instituição e na sua eventual relação (direta ou indireta) de alguns dos seus agentes e ou filiados com os estabelecimentos escolares da cidade.

Para qualquer portuense que se preze, e não apenas, é conhecida a enorme popularidade dos “Liceus” Rodrigues de Freitas (D. Manuel II) e Alexandre Herculano ao longo dos tempos.

Atualmente designados por escolas secundárias e ou agrupamento de escolas, o “Rodrigues de Freitas” e o “Alexandre Herculano” foram edificados nos anos 20/30 e idealizados por Marques da Silva, um prestigiado arquiteto portuense.

Na época, os edifícios ou o seu conjunto eram absolutamente fantásticos e as suas valências e reais possibilidades de intervenção ainda mais. Quem estudou nesses liceus, saberá do que se procura escrever nestas linhas: escadarias diversas, pavilhões gimnodesportivos e ou ginásios, recreios aprazíveis e grandes, bibliotecas, museus, salas de projeção de filmes e ou auditórios, laboratórios, etc, de tudo um pouco existia (existe) em ambos os estabelecimentos escolares, um na zona oriental e outro na zona ocidental da cidade.

O que poucos saberão é que ambos os liceus tinham piscina e que, por exemplo, no “Alexandre Herculano”, ainda há três anos, funcionava regularmente nas aulas de Educação Física, tal como nos referiu o professor Nelson Dias que, gentilmente, nos cedeu uma foto com os alunos a terem hidroginástica.

foto3Infelizmente, o “Alexandre”, nos últimos anos, veio a público pelas piores razões. A escola fechou para obras de requalificação devido a infiltrações, tetos a cair, buracos no chão e, obviamente, no quadro existente, também a piscina ficou desativada. Mas… ainda existe! Mede 12 metros de comprimento e seis de largura, com profundidade a evoluir de um a um metro e meio e com janelas para o exterior, o que proporciona uma luz radiosa e convidativa.

No “Rodrigues de Freitas”, infelizmente, a piscina já não existe, tendo terminado mais ou menos em meados de 90, eventualmente 1994 (os dados são imprecisos). O autor destas linhas ainda lá nadou alguns anos antes integrado numa turma do primeiro ano do curso para professor de Educação Física no antigo ISEF, do Porto, que possuía mesmo ao lado as suas instalações (designadas pelo “barracão” – atual auditório do Conservatório de Música do Porto que atualmente se insere nas próprias instalações do edifício de raiz do “Rodrigues de Freitas”).

A piscina constituía-se como excelente equipamento desportivo, (eventualmente 20 metros comprimento) e dava perfeitamente para treinar e nadar com relativa competência. Segundo Joaquim Teixeira, um dos professores de Educação Física mais antigo da escola, “a caldeira era a gasóleo, mas entretanto pifou”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
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O nosso interlocutor fala da dimensão da piscina como tendo 19 metros de comprimento e refere ter havido ao longo dos tempos melhorias/modificações na sua profundidade, o que corresponde com os dados que temos. Este professor de 62 anos falou-nos com nostalgia do espaço, dos balneários próprios da piscina e muitas recordações. Na altura da avaria do equipamento, logo a seguir, “a escola com uma seleção dos seus estudantes, foi a Lisboa disputar um concurso televisivo com o Liceu Camões e dizia-se que o prémio monetário ganho seria para arranjar a piscina, o que nunca veio a acontecer”, referiu. Recuando um pouco mais, e pela leitura atenta do Facebook de antigos alunos, referem-se “angariações de fundos dos estudantes” para recolocar a piscina a funcionar, e surge também o nome do professor Bravo Queirós, mais tarde treinador de natação do CDUP. Ainda no que à natação de competição diz respeito, haverá um facto mais marcante na história da piscina do “Rodrigues de Freitas” que nos finais dos anos 60 teve Filipe Vaz como professor de Educação Física. Filipe Vaz convenceu o reitor da altura a fazer funcionar a piscina e também para alunos de fora, neste caso os deficientes visuais do Instituto S. Manuel. Foram momentos marcantes, com a piscina a funcionar em grande escala e com os finais dos anos letivos a terem provas internas para todos os alunos. Filipe Vaz viria a ser um conceituado técnico de natação, quer no F.C. Porto, quer no Clube Fluvial Portuense e, neste caso, alguns alunos das turmas do “Rodrigues” seriam “desviados” mais tarde, desportivamente, para o Fluvial Portuense onde se sagraram campeões de natação, casos concretos de José Bacelar e Carlos Gil Rodrigues. Da estafeta campeã naquele tempo, completaram o conjunto Horácio Oliveira e José Baltar Leite (o popular Zé Nando), anos mais tarde campeoníssimo de fundo e posteriormente treinador de atletas olímpicos.

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Atualmente, na Escola Secundária Rodrigues de Freitas, no local da piscina, funciona um espaço para ginástica utilizado para as aulas de Educação Física também do Conservatório de Música do Porto e de onde ainda restam os azulejos originais. Na tipologia existente, este espaço designa-se (ainda) por “ginásio pequeno” ou “ginásio-piscina” como é vulgarmente conhecido.

Quanto ao “Alexandre Herculano,” foram aprovados cerca de 10 milhões de euros para recuperar o espaço, que inclui árvores centenárias, edifícios imponentes e até uma “casa do reitor”. E a piscina? Alguém irá perceber o enorme valor patrimonial, histórico e o elevado potencial de utilização naquela zona da cidade?

Agradecimentos especiais aos vários professores de Educação Física que colaboraram neste artigo (Nelson Dias, Joaquim Teixeira e Rui Anjos), assim como a Luís Lopes dos Santos, campeão absoluto de natação nos anos 70 e atual membro da direção do Clube Fluvial Portuense.

Créditos das fotos da Escola Rodrigues de Freitas: Facebook liceu d.manuel II/rodrigues de freitas

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