Não sabemos nadar é o que é…

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Um artigo de opinião do conceituado jornalista Óscar Mascarenhas, do Diário de Notícias, referente à conquista do título europeu na Suíça pela nadadora portuguesa Ana Francisco.

Nos últimos anos da ditadura e primeiros da década de 70, realizavam-se em Almada os jogos juvenis. Esta iniciativa não era apenas pôr jovens a fazer desporto. Sabia-o o regime e os organizadores nem o escondiam.

Decorriam os jogos com milhares de adolescentes em atividade desportiva, quando um repórter, do “Século”, se chegou junto de um dos organizadores para fazer notícia dos eventos. Quem estava mais afastado apenas se deu conta de que o pobre jornalista saiu de orelha murcha, meio aparvalhado com a resposta: “A única coisa que lhe interessava saber era quem tinha marcado os golos”, explicou o organizador interpelado. “E deste-lhe os nomes?” “Dei, só um”. Disse-lhe que foi o Pedro e que marcou os golos todos. Assim ele poupava linhas e já podia escrever o que interessam dos Jogos Juvenis.

Nesse tempo, desconfiavam os dos que, no desporto, faziam o louvor dos heróis do jogo e escondiam a crónica do protagonismo coletivo, do esforço do grupo, da alegria em conjunto por participar. Mais desconfiavam os que ainda não davam notícia dos que punham o desporto em marcha do lado de fora dos carros do regime.

Éramos assim.

Vinte anos depois, nos de ontem estaríamos ainda mais desconfiados, e teríamos razões para isso. E que, nesta altura, haveria notícia, no lá de lá, dos Pedidos, que marcavam os golos.

Hoje, nem isso.

Num dia da semana passada, os noticiários desportivos nas televisões nas primeiras páginas dos jornais a preocupação dominante era a de saber se o Lemajiic ficaria ou não como quarto guarda-roupa do Sporting e se menos aceitaria enfim ser terceiro guarda-roupa do Vitória de Guimarães.

Quando a angústia dos adeptos pareceu abrandar, os noticiários atreveram-se, então, a dar outras novas que não o futebol.

Num parêntesis noticioso, daqueles que se fazem para desenhar o consumidor, foi dito, assim ao descair, que na Suíça uma tal Ana Francisca, de 14 anos, acabara de se sagrar campeão europeia júnior dos 200 metro mariposa, qualificando-se desde já para os Jogos Olímpicos. A notícia era acompanhada de imagens de arquivo de fraca visibilidade. Dois dias depois, Ana Francisco era vice-campeã dos 100 metros mariposa. Menos relevo teve.

Foi tão pouco importante o duplo feito de Ana Francisco, se passou até por debaixo do omnisciente e sempre obstipação nariz do professor Marcelo, que não se esqueceu de dar nota da recordista mundial Fernanda Ribeiro. A omissão de Ana Francisco é tanto mais deprimente quanto é reconhecido que Marcelo é especialista em natação (eleitoral, pelo menos).

Quantos campeões europeus de natação temos ou tivemos? Porque ficou esquecida Ana Francisca? Por uma razão simples: ela nada fora do sistema. O seu clube e a Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, cuja sigla mais parece o último sirvo da água da piscina através do ralo: sfuap! Ora a SFUAP persiste em fazer desporto de massas e passar pelos intervalos da chuva de subsídios. Não tem notoriedade. Como tal, não tem imagem. E quando não há imagem, quem paga é a notícia.

À Ana Francisco, só tenho uma palavra de consolação: a informação anda a deriva nas águas em que se deixou apresentar. Ensina-nos a nadar, companheira.

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