Luís Naia, nadador de fundo do Benfica que cometeu a proeza de nadar no dia de Natal em 1930

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Numa visita ao Meseu do Benfica, Cosme Damião pode ficar a conhecer a história de um dos bons nadadores da altura em provas longas de natação, que nos anos 30 aproveitavam as condições do Rio Tejo para se fazerem grandes façanhas natatórias.

Antes, quero contar como conheci este senhor. Foi na lota onde os barcos de pesca da costa vão ao Tejo carregados de peixe. Luís Naia era um dos muitos vendedores. Isto passou-se nos anos 50, quando começava a dar as minhas primeiras braçadas em conjunto com outros nadadores.

Então foram muitas as nossas conversas que vinham sempre a natação à baila, dava-me muitos conselhos como se nadava nas águas do Tejo…

Até que me contava as várias façanhas de provas que escutou, aqui tive que recorrer ao meu baú de memórias onde encontrei uma das suas façanhas históricas.

Uma odisseia natalícia

Aconteceu na manhã do dia de Natal de 1930, acordou tempestuosa, no Terreiro Paço, Luís Naia, nadador do Sport Lisboa e Benfica, à beira do Tejo, somente coberto pela malha leve do calção. O rio apresentava más condições para uma prova de natação: águas mortas, rio agitado, chuva pegada e vento forte de travessia. Tiravam de frio os acompanhantes do nadador. E tiravam de frio as pombas e as gaivotas. O nadador não hesitou e saltou para as águas gélidas quando foi dado o sinal de partida, as 7 horas e 40 minutos, entre aplausos do grupo de pessoas presentes.

Luís Naia tinha-se preparado cuidadosa e metodicamente para esta prova. Na Pequena Travessia de Lisboa, quase em segredo, tinha ficado preso pelo desejo de cumprir ou suplantar a prosa realizada pelo nadador Eduardo Vieira Alves, do Sport Algés e Dafundo, exatamente um ano antes. Numa braçada ritmada constante, o nadador benfiquista rasgava as águas, lutando não só contra a ondulação, mas também contra o vento contrário e a chuva, condições que foram piorando à medida que se aproximava da Torre de Belém. A dado momento, os remos do bote de apoio que acompanhava não aguentaram tantas adversidades e partiram-se e a embarcação foi revisada para terra, ficando só a acompanhar o nadador o “gasolina” fretado pelo Benfica. Ainda assim, o ânimo do nadador não frequentou e continuou a sua odisseia.

Da embarcação partiam incitamentos ao valoroso nadador, mas havia também quem achasse que seria hora de parar, que este já tinha provado o seu valor e que estava a colocar a sua vida em risco.

Luís Naia, todavia, recusava-se a desistir e com grande espírito desportivo e para elevar mais alto o nome do seu clube luta ardorosamente para que a sua tentativa termine a uma centena de metros do “terminus”. Ao chegar ao fim do percurso, em Pedrouços, o seu tempo foi registado oficialmente pela Associação de Natação de Lisboa: percorria mais de oito quilómetros em apenas 1 hora, 36 minutos e 7 segundos. Tinha batido o recorde da distância.

Em terra, modesto, o nadador mostrou-se feliz por ter cumprido a prova que se propuseram realizar. Esta seria, ao longo da sua vida, a façanha de que mais se orgulharia.

O seu esforço e dedicação em elevar o nome do seu clube seriam recordados e recompensados ao ser distinguido com a Águia de Prata, que lhe foi entregue na sessão solene de celebração do 27.º aniversário do Sport Lisboa e Benfica.

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