Lembrar Mário Simas, melhor nadador de Portugal na primeira metade do século XX

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O tempo de pandemia obriga-nos a estar em casa. Longo tempo, olhando para o passado, vasculhando o meu baú de histórias e recordações dos bons velhos tempos que vivi mais de meio século nos cais das piscinas, com muitos amigos, companheiros e camaradas.

Mário Simas era meu ídolo quando eu era um puto, por ouvir falar dele, pela sua forma do nado, quem diria que que pela primeira vez que estive com o senhor já eu era nadador aspirante, na célebre piscina aquecida da Alapraia, no Estoril, assim como na companhia do senhor Alberto Azinhais dos Santos, seu treinador.

Era um garoto do bairro de Alfama, que estava a dar as minhas primeiras braçadas. Mário Simas, com idade muito jovem, de 12 anos, começou em conjunto com os seus irmãos a frequentar o Estádio Náutico do Algés.

Começou a dar nas vistas, pela sua forma do nado, até que em conjunto com outros disputou a sua primeira competição na distância de 33 metros (era a dimensão da piscina, competição que venceu perante os seus companheiros, todos mais idosos).

Então, foi quando o Azinhais dos Santos, o responsável pela natação do Algés, vendo as qualidades do jovem, chamou-o para o seu grupo de treino, passando assim a ser ele o seu treinador principal.

Até que, em 1937, Mário Simas disputa as suas primeiras provas de 100 metros a sério, na técnica de costas e livres, no Campeonato de Portugal.

A partir destas foi só somar triunfos atrás de triunfos, só somar sucessos com marcas a superarem novos máximos nacionais de categoria absolutas.

Ao longo da sua extraordinária carreira, participou em 10 Campeonatos Nacionais: seis como nadador do Algés e quatro a defender as cores do Estoril Praia.

No mês de setembro de 1938 visita Portugal, a convite do Algés, uma seleção alemã. Simas, com 16 anos, surpreendeu tudo e todos no Estádio Náutico do Algés, dando nas vistas, tendo sido derrotado por um segundo na prova dos 100 costas com a marca que superou o recorde absoluto, 1.16.27.

Nos anos 40 era muito a escassez de encontros internacionais a nível de seleções. Neste período, apenas Portugal defronta a seleção de Espanha. Em 1945 realizou um encontro em Barcelona e nesse mesmo ano este encontro voltou a realizar-se na piscina do Algés.

Em 1946 novamente em Portugal e em 1947 em Espanha nas ilhas Canárias. Nestes três anos, Mário Simas triunfou em oito competições individuais, costas e livres, contribuindo de forma decisiva para a inesquecível vitória portuguesa na estafeta de 4×200 livres. Este feito foi protagonizado no 3.º Encontro na piscina do Algés com o Estádio Náutico repleto de público, mais de 5000, muito entusiasmante pela modalidade, que se diga, poucas vezes uma prova de natação tem revestido de tão emocionantes aspetos como esta da estafeta olímpica. Foi extraordinariamente cheio de emoção e energia com um final arrebatador que deu vitória brilhante à natação portuguesa pelo conjunto português. O esforço extraordinário arrebatou a multidão entusiasmada e o final vitorioso foi sublinhado pela explosão forte de aplausos intermináveis para a equipa nacional constituída por Jeremias Simão, Luís Lopes da Conceição, Batista Pereira e Mário Simas.

Dizem as crónicas do tempo que Mário, no último percurso, contra um adversário famoso na altura na Europa, recebeu o testemunho com um escasso metro de vantagem. Foi uma verdadeira luta titânica entre ele e o seu adversário até ao arranque final, admirável, na última meia piscina para a vitória.

A marca constitui recorde de Portugal por 18,5 segundos e 10 décimos, marca ibérica que durou até 1956. Mário Simas superou mais de 30 vezes os seus recordes absolutos e o melhor ibérico nos 100 e 200 livres que duraram de 1938 a 1956.

Mário Simas tinha conquistado uma popularidade por todo o país. Ouvia-se, naqueles tempos, nas praias, os banhistas dizerem “parece o Simas a nadar” “até nadas à Simas”.

Mário foi um atleta exemplar, quer nos resultados conseguidos, quer na sua conduta desportiva, considerando a sua saída do Algés em 1943, matéria que abordaremos adiante.

“Duas competições máximas europeias e Jogos Olímpicos”

Coroando o seu brilhante palmarés, competiu, como representante da natação portuguesa, nos Campeonatos da Europa em Monte Carlo, em maio de 1957, e nos primeiros jogos Olímpicos, após a 2.ª Guerra Mundial, que se realizou em Londres em 1948. Em ambos os certames, teve atuação diferente na sua grande especialidade de costas. Foi excelente no Mónaco e discreto nos Jogos.

Nos Europeus, já com 25 anos, foi finalista, e confirmou as previsões do seu nome para um dos lugares do pódio ao vencer uma das séries nas eliminatórias dos 100 costas com 1.09.80.

No final, Simas não conseguiu um dos seus efetivos de acordo com o seu prestígio. Terminou na sétima e última posição com 1.11.60. Aconteceu um caso muito curioso. Num dos toques da parede, ficou na dúvida e, para não ser desqualificado, voltou atrás para repetir, perdendo tempo de um talvez provável lugar no pódio.

No ano seguinte participou nos Jogos em Londres, posicionando-se em 20.º lugar em 39 participantes de 24 países.

Após esta competição, em artigo público no jornal A Bola fez a sua despedida como nadador de competição, estando desiludido com a sua prestação. Esperava um bom resultado, que igualaria o recorde nacional. Onde sentisse falta de confiança nas suas possibilidades para um bom resultado, estava convencido que igualaria o recorde de Portugal. Esse dava entrada na final, para aí conquistar uma boa posição, aliás todos os tempos são fraquíssimos se compararmos com a intensidade e a brutalidade com que todos estes nadadores se prepararam em longa data.

É certo que muitos que hoje foram aplaudidos pelo público nestas e outras competições, os penaliza na altura.

Na segunda parte é a irradiação e a mudança do Algés para o Estoril Praia.

Créditos da foto: COP

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