João Machado: “Saio do Gondomar por vontade própria, por um acumular de saturação e insatisfação”

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O técnico João Machado, em reação à notícia Machado de saída do Gondomar, jogadores aliciados para o CPN”, esclarece que sai do Gondomar “por vontade própria, por um acumular de saturação e insatisfação com a falta de condições de treino, visão desportiva e estrutura diretiva”.

Leia na íntegra o texto enviado para o Chlorus e publicado na página de Facebook de João Pedro Machado:

“1 – Saio do Gondomar por vontade própria, não porque me disseram para sair, mas por um acumular de saturação e insatisfação com a falta de condições de treino (que são praticamente as mesmas há 20 anos), visão desportiva e estrutura diretiva que seja ativamente presente no apoio ao dia-a-dia da secção de Polo Aquático.

2 – O nome do CPN surge aqui no meio desta confusão toda EXLUSIVAMENTE por minha responsabilidade. Ou seja, nunca o clube em questão tomou a iniciativa de contactar seja quem fosse do Gondomar Cultural.

Posto isto, posso começar a escrever.

Estive no Gondomar Cultural durante as últimas 4 épocas, tendo estado outras 3 (entre 2009 e 2012) numa anterior passagem pelo clube, apenas enquanto jogador.

Clube que foi meu rival durante anos nos escalões de formação, em outubro de 2009 aceitei-o e passei a defendê-lo como se fosse o meu desde pequeno, de forma a poder retribuir a forma calorosa como fui recebido por todos assim que lá cheguei.

Durante todos esses anos verifiquei que existia uma enorme ausência da estrutura diretiva no que dizia respeito ao acompanhamento da secção de polo, tendo constantemente de ser os treinadores, ou os próprios jogadores mais velhos (como chegou a acontecer dentro da equipa feminina) a fazer trabalho que seria de um seccionista (Ex: receber e gerir o dinheiro das quotas pagas pelas jogadoras).

Por este motivo espanta-me o surgimento desta entrevista, principalmente sendo dada por alguém que nos últimos 4 anos apareceu 4 vezes aos jogadores e respetivos pais, tendo mesmo duas delas sido apenas na última semana desta época, quando a casa já abanava por todo o lado.

Para mim, que já passei por outros clubes (e que isso felizmente fez com que abrisse horizontes e percebesse como funciona um clube com uma estrutura devidamente montada), que ando juntamente com os meus jogadores época após época, de 2a a Domingo a tentar levar o barco para a frente, é frustrante trabalhar com vista a melhorar e evoluir enquanto se vai ouvindo coisas como “vê se ficas em 4º lugar” (para não ser apurado para um campeonato nacional), “NÃO PODE SER!” no dia seguinte à equipa ter subido de divisão ao fim de 4 anos de muita luta e sacrifício, etc.

Durante estas 4 épocas tive alguns convites de outros clubes para poder abraçar novos projetos, mas nunca o quis por acreditar no grupo de pessoas que tinha comigo todos os dias em Rio Tinto. Não nas condições de trabalho que tínhamos, mas sim no potencial de um grupo de miúdos (muitos agora já com idade adulta) e pelo prazer que sempre me deu vê-los crescer, ganharem competitividade e terem a ambição de serem sempre melhores.

No decorrer desta época tive novo convite de outro clube que, aliado à minha insatisfação supra-citada e a alguns acontecimentos que de seguida referirei (por ordem cronológica), me fez de certa forma despertar e abrir os olhos.

Para alguns, posso não ter agido da melhor forma, mas agi como achei que era o melhor para o grupo, para não colocar em causa o que ainda faltava da época (meias finais e final da 2a divisão, ultimos jogos do campeonato regional e campeonato nacional de sub20).

Ordem cronológica de eventos:

– Meados de abril, surgiu um rumor de que a piscina de Rio Tinto poderia encerrar para obras prolongadas a partir da próxima época e que de certa forma colocaria em causa o polo aquático do Gondomar, já que existia alguma indefinição quanto à disponibilidade de locais/horas de treino noutras piscinas do concelho;

– Devido a isto, aliado à minha já existente insatisfação e ao convite que recebi de outro clube, contactei os dirigentes do CPN (que nem os conhecia na altura) para tentar marcar uma reunião. A reunião ficou marcada para dois dias depois desse contacto;

– Dia 24 de abril (sim, 24 de abril. Não andava desde o início da época a pensar nisto, como alguém já se deu ao trabalho de inventar!) reuni com duas pessoas da direção do CPN para saber EXCLUSIVAMENTE se estariam interessados em receber uma equipa de polo, com uma estrutura já montada, no caso de a situação na piscina de Rio Tinto dar para o torto e a equipa ficasse sem local para treinar (quem estaria mais em risco de não ter local para treinar, até seriam os escalões mais novos porque dizia-se que não teriam horários para treinar). Obviamente que tentei perceber quais seriam as condições e garantias de viabilidade existentes, oferecidas e exigidas para que essa mudança acontecesse. No final dessa reunião ficou acordado entre as partes que não seria abordado mais o assunto até que pelo menos a época sénior do Gondomar Cultural findasse, de forma a não misturar as águas;

– Dia 19 de maio, a equipa sénior consuma em Silves a subida à primeira divisão;

– Dia 20 de maio o presidente do Gondomar Cultural liga para um dos treinadores do clube (que não eu, que era treinador dos seniores masculinos…) a perguntar “o que se passa com os rapazes?!”, pois foi contactado por um jornal do concelho de Gondomar e

– Não fazia sequer ideia de que tínhamos subido de divisão. A primeira resposta obtida ao saber da subida de divisão foi “Não pode ser!”, usando como argumentos o dinheiro que se iria gastar na 1ª Divisão, o facto de que “não tem jeito nenhum” subirmos por termos ficado em terceiros só porque as duas equipas que ficaram à nossa frente eram equipas B de outros clubes, etc;

– Dia 9 de junho, reuni com os meus jogadores e respetivos pais e expus três pontos: os rumores das obras das piscinas, a chamada feita pelo presidente no dia 20 de maio e a possibilidade de termos um clube como alternativa, caso a questão das obras e a não subida de divisão se consumassem;

– No dia 12 de junho, o clube (na pessoa do Ricardo Ferreira) é ameaçado quer por parte da ANNP (da parte da manhã) e da FPN (por volta das 18h) de poder colocar em causa as restantes competições da época (2 jogos do Campeonato regional de A20 femininos campeonatos nacionais de A18 e 20 femininos e A20 masculinos), caso não fossem pagos os valores em dívida (valores de todos os campeonatos de 2018/2019) às respetivas entidades até ao final do dia 14 de junho. Valores esses que até essa data não foram pagos na íntegra, tendo sido preciso o Ricardo Ferreira andar dia e meio a tentar que o tesoureiro do clube (que desde janeiro/fevereiro por várias vezes disse que esses valores já estavam pagos) pagasse no dia 14 a parte respetiva à ANNP. Para mim pessoalmente, isto e outras coisas que fui sabendo relativas a pagamentos/não pagamentos de épocas anteriores foram gota de água e só a partir daqui é que comecei a amadurecer a ideia de sair de vez do Gondomar Cultural e de criar um projeto com bases sólidas e algumas garantias de futuro (principalmente ao nível de horários e espaços de treino, jogo, ginásio, etc.) no CPN;

– Dia 16 de junho, voltei a reunir com o CPN, desta vez já acompanhado pelo sub-capitão da equipa sénior do Gondomar e um dos delegados que acompanhou as equipas sénior e de sub20 nesta época (pessoa que sempre foi vista por todos como uma mais valia para nós, por já ter sido dirigente de outros clubes e por isso ter experiência no mundo do polo, mas que de repente para alguns a sua opinião passou a ser irrelevante porque “já não dava jeito”…), levando já vários pontos concretos para expor à direção do CPN e assim poder fazer um balanço, ponto a ponto, de com o que poderíamos contar. No final o saldo foi bastante positivo, pois iríamos poder ter muito do que não temos em Gondomar;

– Dia 6 de Julho, reuni novamente com os meus jogadores e com os seus pais, onde transmiti que por tudo o que já aqui escrevi acima iria sair do clube e que por isso a hipótese CPN para mim tinha ganho mais força e que esse passava a ser o meu projeto, tendo explicado todas as condições que ele envolveria (desde mais e melhores horários e espaços de treinos, possíveis valores das mensalidades, possibilidade de fazer ginásio, treinar de manhã e de tarde nas férias escolares, etc.). No final de toda a explicação, a decisão de avançar com a mudança foi praticamente unânime entre todos os jogadores, de forma a dar continuidade ao trabalho realizado nos últimos 4 anos. Foi também praticamente unânime a decisão de marcar de uma reunião para o dia seguinte com o CPN para toda a gente poder conhecer as instalações e ter hipótese de tirar as dúvidas que tivesse diretamente com o presidente e com o diretor técnico do clube;

– Dia 7 de julho, reunião dos jogadores e pais interessados com a direção do CPN nas instalações do clube;

– Dia 15 de julho, dois pais (um que nem esteve em nenhuma das reuniões por mim promovidas e apenas ouviu aquilo que lhe quiseram transmitir…) decidiram ir falar diretamente com o José Silva e contar o que se estava a passar, mesmo depois de eu dizer que no final de tudo seria eu próprio a falar com ele e que dentro do possível iria tratar das coisas da melhor forma, fosse qual fosse a decisão a tomar (por mim pessoalmente e/ou pela equipa);

– Dia 16 de julho, foi pedido por um pequeno grupo de pais, em nome dos restantes, uma reunião com o José Silva e o presidente do clube para abordar toda esta situação. Curiosamente tudo isto foi tratado com algum segredo (mas daqueles segredos que rapidamente toda a gente fica a saber), já que apenas alguns pais receberam convite para estarem presentes nessa reunião. Outros que se sabia à partida que “não interessava” que estivessem presentes, não tiveram direito a chamada de convite…;

Estou à vontade para escrever todas estes factos aqui (incluindo as questões relacionadas com falta de pagamentos por parte do clube, a chamada do presidente a dizer que uma subida à primeira divisão “não pode ser!”, etc etc etc.), porque tudo isto foi dito pessoalmente e confirmado no momento pelo Ricardo na reunião de dia 17 de julho, não só em frente aos pais que se encontravam na reunião mas também perante o José Silva (diretor do polo) e José Santos (presidente do clube) que, mesmo tendo uma pessoa a confirmar todos

Estes factos que apresentei, continuaram a tentar descredibilizar as minhas palavras e fazer com que eu passasse por mentiroso à frente de todas aquelas pessoas. Não fossem dois ou três pais/mães que, perante tantas palavras contraditórias, pediram para me chamar à reunião para eu poder argumentar e me defender e teria sido mesmo essa a imagem que teria ficado de mim.

Tive inclusive pais que dias após a reunião vieram falar particularmente comigo a pedir desculpa por terem participado na reunião de dia 17, porque que só tinham ido porque pensavam que era para toda a gente e basicamente foram ao engano, pois só no local é que se aperceberam para o que tinham sido convidados.

 

Se há alguém a mentir, a inventar coisas (algumas que já entram no campo pessoal) por aí e a tentar fazer a cabeça às outras pessoas, não sou eu. Eu apenas fiz aquilo que achei que era melhor para o meu grupo de jogadores, que é um grupo ambicioso e que não se contenta com a mediocridade. É que ao estar amarrado por todos os lados e ainda levar machadadas nas pernas cada vez que se quer andar em frente, fica muito difícil sair desse nível… Basta pensar nas várias equipas seniores masculinas que o Gondomar teve e que nunca deram nada na primeira divisão (apenas algumas boas campanhas na segunda divisão e assim que subiam andavam sempre na luta para não descer até que voltavam a descer) e nos bons jogadores que o clube teve ao longo dos anos e que chegando à idade júnior/sénior acabaram sempre por sair para outros clubes por verem que em Gondomar não teriam mais margem para progredir. Quem é ambicioso não se contenta com isso…

Para finalizar, resta-me apenas dizer que só tenho pena que tenha sido preciso abanar a casa toda e algumas pessoas verem o barco completamente a afundar e a fugir entre os dedos para tentar sacudir toda a poeira e a inércia que está instalada no Gondomar Cultural há anos.

É triste que no final destes 4 anos, alguém que muitos dos meus jogadores praticamente nem conhecem tente fazer com que eu, que andei dia após dia, a esforçar-me pelo clube (esta época até treinadora de sub12/14 tive de ser eu a arranjar, quando fiquei com sub12/14 mistos e os escalões masculinos todos nos braços no início da época) faça figura de mau da fita.

Eu saio, mas saio com a consciência mais que tranquila, por ter consciência do peso de todas as decisões que tomei, por querer arranjar algo melhor para todos a médio prazo e principalmente por saber que nestes 4 anos fiz tudo, mas TUDO que podia e sabia para poder dar o melhor de mim aos meus jogadores, treinador e colegas de equipa com que me cruzei.

E o MEU/NOSSO (não é só meu como é óbvio, porque todos estivemos lá dia após dia nestes 4 anos a dar o corpo ao manifesto) trabalho fala por si próprio:

– Reativei a equipa de sub12 e sub 14 mistos, após 2/3 anos de paragem em que apenas havia 1/2 miúdos a “treinar”. A equipa contou esta época com um grupo de +- 17/18 jogadores, tendo realizado a sua segunda época consecutiva a competir. E também, ao contrário do que já foi dito ao José Silva no final da reunião de dia 17 de julho, ninguém dos sub14 foi até agora abordado para seguir connosco para o CPN, à exceção do GR (cujo pai esteve presente nas nossas reuniões de dia 9 de Junho e 6 de Julho) que para o ano será sub16;

– Os jogadores que encontrei em 2015 nos escalões de sub15 e sub17 nunca tinham estado perto de se apurarem para um campeonato nacional dos seus respetivos escalões. Em 4 épocas, apuraram-se duas vezes, tendo esta época ficado muito perto de poder garantir um título regional de sub20;

– A equipa sénior, que ficou entre as 3 piores da segunda divisão na minha primeira época após regressar (9º lugar em 2015/2016), foi subindo degrau a degrau e em 2018/2019 subiu de divisão, ficando classificada entre as três melhores equipas da mesma divisão;

– Diversos jogadores de todos os escalões (dos sub12 aos sub20) envolvidos nos trabalhos das seleções regionais e nacionais ao longo destas 4 épocas;

Aos meus jogadores, mantenho o que já disse. Seja qual for o futuro, sempre que precisarem e dentro do que eu puder ajudar, vocês terão sempre tudo de mim.

Obrigado pelo vosso esforço diário e obrigado por acreditarem em nós quando em 2015 quisemos pegar em vocês e fazer de vocês melhores jogadores e principalmente melhores homens.

Sempre juntos”.

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