Fortalezas do desporto nacional

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Nos inícios dos anos 30, dois clubes, um do Norte, FC Porto, e o outro do Sul, Sport Lisboa Benfica, juntaram-se e disputaram um jogo de futebol entre eles, cujo principal objetivo, na altura, era a favor dos depauperadores cofres do Real Clube Fluvial Portuense, velha sede de lutadores na margem sul do Douro, cais de Gaia, que estava na altura para a natação do Norte, como Sport Algés e Dafundo está para o Sul.

Instituições de transparente Utilidade Pública deveriam merecer do Estado a retribuição de tudo quanto já fizeram a favor da saúde física e intelectual das populações e, também, do nível de competitividade dos nadadores portugueses.

Naquela época, apesar do clubismo que já dominava os homens e que provocavam até casos extremos de rivalidade e agressões verbais e física, ainda havia espaço gestor de camaradagem. O futebol, desporto mobilizador de multidões, respondia com nobreza aos pedidos de auxílio dos necessitados, desde antigos atletas, em situações precárias de saúde e de dinheiro, até a clubes, associações, bombeiros, etc.

Hoje o futebol são corifeus a executarem os hinos da ganância, a solidariedade foi defenestrada, num dia qualquer de um qualquer ano do calendário das conquistas.

Nada a fazer. E claro que falar em solidariedade e não em obrigatoriedade. O futebol não tem função de ajudar, diretamente, desportos carecidos e que se debatem num pelado de frustrações criadas pela eterna falta de meios financeiros. Aliás, é cada vez mais independente dos clubes, mas há quem se esqueça dos núcleos de admiradores das várias modalidades que coabitam sob o mesmo teto com tanto direito a verem desporto de bom nível, o seu nudismo preferido, com os ululantes adeptos do grande jogo.

O Fluvial e o Algés chegaram ao fim de mais uma etapa. Sem ajudas estatais, sem uma solução urgente, não conseguem salvar-se da mediocridade onde, inevitavelmente, cairão por falta de meios económicos e técnicos, sabendo-se que estes dependem daqueles.

No levantar das vozes, dignas e autorizadas por décadas de trabalho honesto, não devemos encontrar o pedido de um subsidiozinho, por amor de Deus, mas apenas um lembrar sereno de retribuição que o País lhes deve.

E nós, os contribuintes, que ajudamos a contratar e a pagar chorudas quantias a jogadores de futebol, ficaremos decerto de bem com a consciência de quem utiliza os nossos queridos descontos, se estes ajudarem a resolver os graves problemas do manietados, Algés e Dafundo e Real Clube Fluvial Portuense, fortalezas do desporto nacional.

Este texto é um escrito por Homero Serpa, em 1995, no jornal A BOLA.

Foi um digno nadador e jogador de water-polo no seu clube de coração Belenenses.

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