Fernando Souza da Silva quer representar Portugal nos Jogos Olímpicos de Tóquio

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De tempos em tempos vemos a quebra de paradigmas em vários campos da sociedade e o deporto não poderia estar de fora. Cada vez mais vemos atletas acima dos 30 anos – homens e mulheres – das mais variadas modalidades, demonstrando talento e vigor físico, e fazendo valer sua maior experiência e maturidade.

Uma das razões para isso é o conceito de trabalho multidisciplinar, reunião de profissionais de diversas disciplinas que trabalham por um objetivo comum, muito utilizado na área de saúde. Com a preparação física, o trabalho técnico, mental e muscular, acrescido da nutrição, Portugal começa a ver bons exemplos, como o apresentado pela natação.

O velocista Fernando Souza da Silva, de 34 anos, próximo de receber a cidadania portuguesa, é um bom espelho disso. Depois de disputar quatro Mundiais, ser semifinalista olímpico e medalhista pan-americano pela seleção brasileira (ver ficha no fim), Fernando abandonou o desporto em prol da família.

“Parei em 2016. Minha esposa recebeu o convite para prosseguir o trabalho de modelo em Milão. Resolvi apoiá-la, fazendo o caminho oposto, já que ela sempre deu força na minha carreira. Vivemos um ano e meio em Itália, mas o trabalho para a Camila, já casada e mãe, não era tão bom como antigamente, ainda mais para uma mulher mais madura, não disposta a aceitar qualquer coisa. Eu cheguei a trabalhar de segurança e entregador de comida em bicicleta. Resolvemos voltar ao Brasil” afirmou Fernando, que por sinal é natural de Roma, pois o pai fazia doutorado na capital italiana.

Foi quando teve o acidente em Chernobyl e com as notícias assustadoras da época, de que a radiação se espalharia pela Europa, a família resolveu voltar ao Rio de Janeiro, antes de Fernando completar seis meses.

Aí, o destino bateu à porta e as coisas começaram a aparecer. Aproveitando a documentação europeia da mulher, neta de italiano, o casal resolveu parar em Portugal. E ao lado de onde se hospedaram tinha uma piscina e o dna de cloro falou mais alto. “Resolvi entregar o meu currículo lá e o técnico era o Gustavo Fortuna, que foi meu rival de categoria nas mesmas provas no Brasil: 100m livre e 100 mariposa. Ele convidou-me para trabalhar com ele e nadar pela Sociedade Filarmónica União Artística Piedense (SFUAP). O clube tinha caído para a Segunda Divisão no ano anterior e ele queria um reforço para subir novamente”, revelou.

Como contrapartida pelo facto dele voltar a nadar para ajudá-los, o clube pagou o curso grau 1 para que Fernando pudesse dar aulas de aprendizagem e aperfeiçoamento para crianças e adultos: “E agora estou me candidatando para ter o grau 2, para virar técnico de natação a partir do Infantil. Com o grau 1, só posso ir até aos cadetes, o equivalente ao petiz, no Brasil. Fui muito bem recebido aqui e o Gustavo foi fundamental, pois abriu as portas para mim. E a natação abriu outras portas para mim, em Portugal.

Com a volta do clube à primeira divisão, Fernando teve uma experiência única de ser atleta e auxiliar-técnico. Ao mesmo tempo em que ajudava seu grupo na borda da piscina, estava ao lado deles nos revezamentos. Deu muito certo, mas ainda tratava como diversão, nadando somente uma vez por dia, sem pressão. Foi quando o destino tratou de aprontar novamente.

“Fui numa competição e me encontrei com o Felipe Falcoski, que hoje é meu técnico. Ele veio para Portugal para fazer mestrado em Alto Rendimento e pediu para acompanhar os treinos no Jamor. Depois apresentou um projeto de velocidade já que, em Portugal, a cultura é mais voltada para provas de fundo, meio-fundo e de águas abertas. Por fim, convenceu-me que minha presença seria interessante, por ser experiente e de boa bagagem, o que daria visibilidade ao seu plano, o de que era possível nadar bem com menos volume e mais qualidade”, referiu Fernando Silva.

Falcoski: “Não consigo ver a processo de treinos sem a influência da nutrição”

Curiosamente, o brasileiro Felipe só conheceu Fernando em Portugal. Antes fez estágio na Universidade Santa Cecília (Unisanta), de Santos/SP, uma das principais agremiações desportivas do Brasil.

“O nosso trabalho multidisciplinar existe, mas não é algo comum de se encontrar. Em nosso grupo técnico, com profissionais de culturas diversas, eu sou o treinador; Daniel Moedas é responsável pela performance atlética e reabilitação; Marcella Amar é a nutricionista. Tenho a ideia de que o processo de treino tem como base entender o ser humano e conduzi-lo à sua maior capacidade. Não consigo vê-lo sem a influência da nutrição. Afinal, é a unidade de fornecimento de energia para o movimento do corpo que está sendo treinado. Nós possuímos uma excelente profissional no grupo, que de maneira fácil conseguiu entrar e sintonizar-se com o processo. Portanto, o raciocínio sobre o treino aplicado nos atletas pode trazer benefícios para a natação competitiva. E o Fernando, por sua experiência, está servindo de bom exemplo. O aprendizado de coisas novas é contínuo. Há uma falsa hierarquia que criamos sobre as diferentes áreas envolvidas no processo de treino. Penso que quando olharmos com maior equilíbrio para todas as áreas, o desporto evoluirá em todos os lugares”, concluiu Falcoski.

Fernando Silva: “Quero ajudar a natação portuguesa a crescer”

Assim que Fernando voltou a nadar, recebeu uma mensagem de Marcella, se prontificando a ajudá-lo. Marcella, ex-nadadora de mariposa na seleção brasileira, também competiu no primeiro clube de Fernando, o Flamengo. Depois, Fernando atuou por oito anos pelo Pinheiros, em São Paulo, e por fim, no Minas Tênis.

“A parceria com Marcella só me tem ajudado. Ela é bem solícita. Estava bem acima do peso após parar com o desporto e já voltei ao meu normal. Ganhei massa magra e fiquei mais rápido. A nutrição, assim como o treino, é parte importante do processo. E não vejo muito isso por aqui. A garotada está acostumada com a cultura antiga, de comer o que quer e a qualquer hora. Não pode ser assim com atletas de alto rendimento, tem de ser regrado. Em Portugal se come muito bem e tem doces que são uma tentação, mas sempre fui atleta e me acostumei em controlar bem a alimentação. Consigo recusar numa boa”, brincou Fernando.

Como gostou da metodologia do treinador Falcoski, muito parecida com a que usava no Pinheiros, Fernando resolveu voltar para valer, fazer acontecer de verdade. A proposta de treinar com a equipa no Centro de Alto Rendimento do Jamor o atraiu: “A possibilidade de poder ser uma mais-valia para Portugal me daria acesso ao processo de naturalização. E comecei a participar em várias competições, melhorar os tempos, conseguir finais contra os principais nadadores daqui. E notaram que minha presença seria interessante, não só pelos resultados, mas por outros aspetos. Por ser bem mais velho, posso passar minha vivência de ter convivido e treinado com grandes nadadores (exemplo: os medalhistas olímpicos Cesar Cielo Filho e Thiago Pereira). E esta oportunidade de me estabelecer por aqui me agradou. Minha esposa e minhas filhas (Isabel, 8, e Victória, 6 anos) estão bem adaptadas na escola e fazem natação também. Quero ajudar a natação portuguesa a crescer, dar um boom. Posso ser bastante útil. E como objetivo pessoal, tentar ir aos Jogos, obter bons resultados. Quero ajudá-los a mostrar como se faz, com profissionalismo, equipas multidisciplinares e alertá-los para a importância da nutrição, do descanso, da fisioterapia, da musculação, que poucos clubes a utilizam. Sinto que a minha função aqui é demonstrar o caminho de como se faz uma natação profissional”.

Daniel Moedas: “A intervenção da nutrição no desporto cria uma base energética que permite ao atleta recuperar e adaptar-se ao treino”

Outro integrante da equipa é Daniel Moedas, certificado em duas áreas diferentes: formado em fisioterapia e com especialização em desporto de alto rendimento (mestrado). Moedas foi outro a convidar Fernando para o Centro de Alto Rendimento. Ele trabalhava no clube que Fernando se apresentou ao chegar a Portugal. Estudioso, troca muita figurinha com gente do mundo inteiro: “Creio que por detrás do sucesso desportivo do atleta está todo um processo mais amplo que unifica várias dimensões profissionais como a nutricionista, o médico, o treinador principal, o psicólogo, o massagista, entre outros. Ciência e desporto evoluem à velocidade da luz. A inter-relação entre as diferentes esferas de intervenção profissional permite o desenvolvimento da performance do atleta de forma completa. Meu papel está centrado na prescrição de planos de treinos desenhados com o objetivo de desenvolver as capacidades físicas como mobilidade, força, potência, velocidade, resistência e capacidade aeróbica. Sempre em contacto com o treinador principal e com o restante da equipe técnica, aferimos as necessidades e limitações específicas do Fernando de forma a potencializar seu rendimento e minimizar o risco de lesão. A ajuda da nutricionista Marcella Amar tem sido fundamental em todo o processo, pois consegue desenvolver planos que promovem a melhoria do desempenho físico, a composição corporal e a recuperação muscular do Fernando. A intervenção da nutrição desportiva no desporto é geralmente subestimada, mas cria uma base para o Fernando criar uma base energética que lhe permite recuperar e adaptar-se ao treino. Quanto à reabilitação, consigo acompanhá-lo desde o momento de avaliação clínica, delineando um programa de reabilitação com critérios objetivos para o gradual retorno à prática desportiva, de forma segura e prevenindo o risco de recidiva (integro programas de prevenção secundária). Temos reuniões multidisciplinares onde apresentamos ao Fernando todo o processo de treino, resultados atingidos e redefinimos novas metas, que irão ter no sonho olímpico.

Fernando Silva: “O objetivo é fazer este índice olímpico, estar sempre focado, todo treino é importante”

Fernando vai buscar o tempo mínimo para obter a vaga nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Ao contrário do que acontece no Brasil, não há uma seletiva olímpica e sim um período para que se faça o tempo mínimo em algumas competições. Agora, nos dias 19 e 20 de dezembro de 2020, já tem uma competição em que se pode buscar a marca, mesmo fora do bloco competitivo, que é a partir de fevereiro de 2021.

“Bem, sempre fui nadador dos 100m livre, 100m mariposa e 100 estilos, mas agora, por estar mais experiente e como ganhei massa magra, meu treino é voltado para os 50 metros livres. O foco é nela, mas a prova dos 100 metros livres não será descartada, até porque sei como nadá-la. É a prova que me fez ser campeão pan-americano, me levou aos Jogos Olímpicos e que me levou ao pódio em Universíadas. Pensando nisso, diminuímos muito a quantidade de treinos, com 8 a 9 treinos semanais (cerca de 2km cada um, o que não é tanta distância, mas com muita intensidade). E tem mais 3 treinos de musculação. Não subimos tanto o volume, focamos mais em técnica, concentração, meditação, em acertar os movimentos, os mínimos detalhes, não temos tanto tempo para erros. Estar sempre focado, todo treino é importante, não tem metro perdido. É a mesma filosofia de treino de 50 metros. Mudei aquele negócio de nadar 10 provas numa competição. Isso não mais existe. O foco é os 50m, podendo nadar ainda os 100m livres. Teremos um bloco competitivo de fevereiro a maio de 2021. É o período mais focado para competir. Estamos treinando desde junho e iremos até janeiro para chegar bem preparado para o momento certo. A meta é fazer o mínimo para os Jogos de Tóquio, que hoje é de 22s01 prós 50 metros livres. Mas antes sabemos que tem uma competição muito importante, o Europeu, em maio. O objetivo é fazer este índice olímpico, depois competir no Europeu, e aí terminar o bloco competitivo e iniciar um novo macrociclo, período de treinos voltado para Tóquio. Embora o bloco competitivo seja apenas em fevereiro, tentaremos este tempo em toda oportunidade que tivermos. Tenho alguns bons concorrentes como Miguel Nascimento, do Benfica, que já foi a Mundiais e Europeus e está bem cotado, além de outro Miguel, que treina comigo, bem mais jovem, e que ainda não participou em competições internacionais” finalizou Fernando Silva.

Fernando Souza da Silva

Nascimento: 07/04/1986

Ouro 4x100m livres nos Jogos Pan-Americanos Rio/2007

Semifinalista nos Jogos de Pequim/2008 nos 4x100m livres

4º lugar nos 4x100m livres no Mundial de Roma/2009 com recorde sul-americano que perdurou até 2017.

Medalha de bronze nos 100m livres nos Jogos Mundiais Universitários (Universíades) de Bangkok

Semifinalista (9º) nos 100m estilos no Mundial de Xangai/2006 em piscina de 25m

Finalista nos 4x100m estilos (6º); finalista nos 100m livres (8º) e finalista nos 4x100m livres (8º) no Mundial de Manchester/2008 em piscina de 25m;

Conquistou medalhas em etapas da Taça do Mundo de Natação e em Sul-Americanos. Competiu também nos Jogos Pan-Pacíficos.

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