Ana Catarina Monteiro prepara-se para a estreia olímpica em Tóquio

  •  
  •  
  •  

A melhor nadadora portuguesa da temporada 2017-2018, eleita no Gala de Natação da FPN, vai fazer sua estreia como atleta olímpica nos Jogos de Tóquio. Ana Catarina Martins Cunha Monteiro, a Cata, não vê a hora de entrar na Vila Olímpica e conviver com os principais desportistas do mundo. Com o tempo mínimo exigido para competir no Japão, Cata tem consciência de que o caminho até aqui não foi fácil e se tivesse que optar entre os seus diversos momentos marcantes na carreira, ela escolheria o dia em que marcou 2m08s40 nos 200m mariposa, no campeonato nacional de abril de 2019, em Coimbra, cravando seu nome na equipa olímpica português. O tempo exigido era de 2m08s43.

“Penso que ao longo da carreira tive momentos que me marcaram bastante e que são difíceis de escolher o maior. Se escolhesse um, seria quando me apurei para os Jogos Olímpicos de Tóquio. Conquistar o mínimo com uma piscina inteira a torcer por mim, com muitas das pessoas mais importantes na minha vida a assistir (na piscina ou pela internet) foi muito especial”, disse Ana Catarina, de 27 anos, que acrescentou que “todo ano de 2018 foi especial também, foi o meu ano de revelação, com o primeiro recorde nacional, medalha nos Jogos do Mediterrâneo e final no Campeonato da Europa de piscina longa e Mundial de piscina curta”.  

Há quatro anos, já era para Cata ser nadadora olímpica nos Jogos do Rio de Janeiro. Ela teve o mínimo B, tempo com base no apuramento para os Jogos de Londres 2012, e tudo indicava que, com os tempos estabelecidos, a vaga olímpica estava garantida. Mas as vagas pelo critério da universalidade aumentaram, o que fez com que as cotas para nadadores com mínimo B diminuíssem muito.

“Até ao fim de junho de 2016, achei que estava apurada para os Jogos, e ainda veio uma lesão grave no ombro. O momento que percebi que estava fora das Olimpíadas foi muito duro”, revelou Cata, que foi operada em setembro de 2016.

Na preparação para as Olimpíadas de Tóquio, Ana mantém uma rotina de 10 treinos semanais – em alguns momentos de maior carga ou em estágios, costuma chegar a 11 – totalizando aproximadamente de 65 a 70 quilómetros. Em momentos específicos, cresce para 90km. São treinos de 2 a 2,5 horas, variando ao longo da época. Cata ainda faz trabalho de força, 3 a 4 vezes por semana, mais trabalho de core/cardio outras duas vezes, assim como uma sessão de pilates. A fisioterapia também está muito presente em sua rotina.

“Este ano foi atípico, para mim e para grande parte dos nadadores. Usei este ano “extra” para trabalhar alguns pormenores que poderia não ter tido a hipótese de trabalhar. O processo está a correr bem, agora é importante poder retomar o ritmo competitivo. Antes de chegar aos Jogos, o meu principal momento de avaliação será o Campeonato Europeu, em maio de 2021, em Budapeste. Em janeiro, vou realizar um estágio em altitude, e se tudo correr dentro do planeado, irei disputar três competições nos fins de semanas seguintes para ganhar aquele ritmo que me faltou neste último ano”, referiu.

Catarina está com uma boa estrutura montada para o seu treino. Uma equipa  multidisciplinar que a faz sonhar num futuro ainda mais promissor.

“Do meu ponto de vista, o trabalho em equipa é fundamental. Todas as áreas são essenciais quando estamos num campeonato do porte de um Europeu, Mundial ou Jogos Olímpicos, em que todos os atletas que lá estão trabalham forte e treinam muito. Por isso, é importante estar atento a todos os pequenos pormenores que no dia a dia nos fortaleça no momento chave. Cada um dos elementos tem um papel fundamental na preparação e é decisivo para o resultado final. Por isso, digo sempre que quando toco na parede e o resultado aparece, aquele resultado não é só meu, mas sim de toda a equipa”, frisou Cata, que tem como técnico Fábio Pereira.

“Fábio foi meu colega de treino por cerca de 10 anos, e com quem aprendi muito. Cresci demais ao olhar para ele como atleta, ao vê-lo treinar. Ele treina-me desde 2017. Nosso trabalho baseia-se muito na confiança mútua, na luta por superar alguns desafios e limites. É o Fabio quem coordena todo o processo e faz com que o trabalho em equipa seja possível e com bons resultados. Temos ainda a Mafalda Oliveira, da fisioterapia, que me acompanha desde 2006, há quase 15 anos. Ela é um pilar fundamental na minha recuperação e preparação. Já com o preparador-físico Pedro Maio, comecei a trabalhar em 2016, durante as férias de verão, para preparar a cirurgia e o pós-cirúrgico. Tivemos uma sintonia tão grande que fez com que eu quisesse fazer a minha preparação física com ele com vista aos Jogos de Tóquio. Temos tido grandes desafios e tem sido um ótimo percurso”, refere.

Catarina prossegue, apresentando a sua equipa: “A parte psicológica é fundamental, o Dr Jorge Silvério acompanha-me desde 2015 e ter alguém com quem falar, preparar os momentos de maior tensão, é fundamental e parte importante da preparação. Desde 2014 sou acompanhada pelo dr. Rui Escaleira, o meu médico. Temos uma relação muito especial, até porque a medicina desportiva é uma das minhas paixões (Cata faz mestrado em Bioengenharia e quer seguir em medicina desportiva após a carreira na natação). Estamos sempre a ver onde podemos ganhar “mais alguma coisinha”, até onde o meu corpo pode ir sem ultrapassar os limites, quando precisa de recuperação. O doutor conhece-me muito bem e isso permite-nos desafiar constantemente sem correr riscos de exagerar. E foi com o dr. Escaleira que vimos a possibilidade de que ter um plano alimentar mais específico e controlado, nesta última fase poderia ser benéfico. Nos últimos anos venho ouvido falar muito bem do trabalho da Marcella (nutricionista luso-brasileira Marcella Amar, ex-nadadora de mariposa) por parte de atletas brasileiros, e achamos que podia ser bom juntar ainda mais esta mais valia à minha preparação. Desde logo, Marcella mostrou-se muito disponível, e em sintonia com o Dr Rui, penso ser um ótimo complemento no processo”.

Ana Catarina começou a nadar aos dois anos por motivo de segurança. A sua família viajava nas férias e resolveu precaver-se da possibilidade de ter piscina por perto de uma criança tão aventureira. Aos sete anos integrou a pré-competição do Clube Fluvial Vilacondense, que representa há 20 anos, e que fez crescer na jovem atleta o gosto pelo desporto e pela competição.

“Ano após ano, eu sentia a adrenalina. E o desafio que o treino proporciona fazia crescer o “bichinho” da competição em mim. Tudo isto, além do grande ambiente de minha equipa, tornaram a natação a minha grande paixão e me fizeram acreditar que eu podia chegar mais longe”, diz a nadadora.

“A mariposa sempre foi o meu estilo preferido. Lembro que sempre que fazíamos sprints no treino e escolhíamos o estilo, eu escolhia a mariposa, desde bem pequenina. Os 200 mariposa foi a prova que comecei a ter bons resultados mais cedo, apesar de na formação também me destacar no estilo costas. Atualmente gosto de competir nas provas de fundo e estilos também em torneios preparatórios. Mas todo o meu foco está direcionado para os 200 mariposa, e é sem duvida a prova que mais gosto de nadar, acho que consigo até de olhos fechados (risos). Desde 2007, treino em piscina de 50, e é sem dúvida a minha preferida, apesar de já ter alcançado bons resultados em piscina curta e cada vez mais gostar dos desafios que surgem.

Principais resultados de Ana Catarina Monteiro

Mundial de piscina olímpica (50 metros)
2019 – Gwangju / Coreia do Sul
200m mariposa – SemiFinalista = 12.ª classificada (2m09s72) 

Mundial de Curta (25 metros)
2018 – Hangzhou / China
200m mariposa – finalista = 6.ª classificada (2m05s74 – recorde nacional e melhor resultado feminino de Portugal na competição)

Europeu de piscina olímpica
2018 – Glasgow / Escócia
200m mariposa – finalista = 5.ª classificada (2m08s03 – recorde nacional e melhor resultado feminino de Portugal na competição)
2016 – Londres / Inglaterra
200m mariposa – Semifinalista = 14.ª classifcada (2m11s83)

Europeu de Curta
2019 Glasgow / Escócia
200m mariposa – finalista – 7.ª classificada (2m06s95)

Jogos Mediterrâneos
2018 – Terragona / Espanha
200m mariposa – medalhista = PRATA (2m08s86). Atrás somente da campeã olímpica, a espanhola Mireia Belmonte, de quem Catarina é fã.

Circuito Mare Nostrum
2019 – etapa de Barcelona / Espanha
200m mariposa – medalhista – BRONZE (2m09s19)

Melhor nadadora de 2017-2018 no Gala de Natação da FPN (Federação Portuguesa de Natação)  

Vencedora do 2.º circuito luso-andaluz 2018-19, composto por 4 etapas, com 2376 pontos

Mais de 10 mil leitores não dispensam o Chlorus.
Fazer jornalismo de Natação tem um custo e por isso
precisamos de si para continuar a trabalhar e fazer melhor.
Torne-se nosso assinante por apenas 12€ por ano e
tenha acesso a todos os conteúdos Premium.



Comentários