After-Party

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A natação é um desporto individual incrivelmente duro. 90% do tempo de treino é passado com a cabeça dentro de água sem poder comunicar com os colegas, tornando-se especialmente penoso e “solitário”. A verdade é que, mesmo trabalhando em equipa, a natação é tão solitária que num treino de duas horas há tempo para pensar em quase tudo o que se passa na vida pessoal, profissional ou académica e ainda ouvir no nosso pensamento um qualquer Hit de verão, vezes e vezes sem conta. Imagino a quantidade de vezes que já tocou o Despacito no pensamento de alguém, este ano, numa série de 10x200L!

Como noutros desportos, a maioria dos nadadores treinam durante vários meses em busca de um estado de forma que lhes permita ultrapassar os seus limites, conseguir melhorar as suas marcas e atingir os seus objetivos.

Dia após dia é percorrida uma rotina, com alguns truques (dependendo do treinador e atleta) para ir vencendo a monotonia. São meses e meses de preparação para o objetivo delineado. Na maioria dos casos um nadador consegue fazer 2 grandes picos de forma, as vezes 3, por ano. Isto acaba por corresponder a 2 ou 3 semanas por ano, em forma, numa época que dura, por vezes, mais de 11 meses. É muito duro. Manter níveis de motivação durante tanto tempo é tarefa realmente difícil.

E o que fazer após o grande momento da época? Em alguns casos festejam-se as conquistas enquanto noutros se faz o “luto” necessário. Ter sucesso é um sentimento incrível ao passo que perder é realmente doloroso (para quem se importa, obviamente). No entanto em qualquer uma das situações, vencer a inércia que se instala após uma grande competição, voltar ao treino diário, focar em novos objetivos, é um desafio muito grande. É no recomeçar que se vê quem quer ser campeão ou continuar a ser campeão.

Aquela pequena depressão que se instala após a competição é tão comum que os treinadores têm que ter a sensibilidade de dar algum tempo aos atletas para se desligarem da modalidade, tanto física como psicologicamente. É fundamental recarregar energias para enfrentar tudo o que ainda resta da época.

Chegar ao topo é algo realmente árduo e moroso. Perguntem ao Phelps se não teve que sofrer muito para conseguir chegar a 2008 e ganhar 8 medalhas de ouro olímpicas? Mas custou-lhe ainda mais, após uma paragem prolongada ou ressaca olímpica, o recomeçar, o voltar ao topo e manter-se lá.

São os atletas que conseguem voltar a motivar-se de novo logo após um sucesso ou insucesso, que têm maior probabilidade de atingir os seus objetivos a longo prazo e não desistir. São os que continuam com fome e ambição de conseguir mais e melhor, quer tenham vencido ou perdido, vão estar mais próximos do sucesso no amanhã.

É por isso que é necessário que também o atleta perceba o seu treinador, quando este lhe disser que ainda vai ter que treinar até ao Natal e Ano Novo, percebendo que 2017 ainda não acabou, porque o objetivo é preparar um bom 2018 e um ainda melhor 2020…

É obrigatório o atleta fazer o seu reset o mais depressa possível, porque é aqui e agora, no “after party”, que se começa a decidir quem serão campeões do futuro!

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