A incerteza da retoma!

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Vivemos atualmente um período inédito na sociedade, pelo menos para aqueles que ainda se encontram na vida ativa profissional, aqueles que nunca passaram por qualquer tipo de pandemia e, portanto, habituados a viver de forma livre, sem os constrangimentos atuais, consequência do Covid-19.

A forma de interagirmos uns com os outros e com a sociedade, na sua globalidade, mudou. Hoje existem receios, que nunca foram receios, dúvidas que nunca foram dúvidas, cuidados que dantes nem sequer eram preocupação hoje, com algum exagero, até da sombra desconfiamos!

Visões catastrofistas à parte, a verdade é que vivemos um período diferente, com a necessidade de fazermos aprendizagens mais ou menos apressadas, para nos podermos manter protegidos e longe deste vírus que por aí anda. Fomos todos apanhados desprevenidos e sofremos na pele esse fenómeno, não só com a doença propriamente dita, que acabou por contactar com familiares ou pessoas amigas, mas também pelo alarme real que se criou na sociedade, que a levou a desacelerar e em alguns casos a bloqueou.

Tudo parou, em particular o desporto, desde as escolas de formação às equipas de competição. Estas últimas foram retomando, mas bastante condicionadas. Foram aproximadamente seis meses de paragem, exceto para a 1ª liga do futebol profissional, que retomou a sua atividade ao fim de 3 meses com “jogos à porta fechada”.

Facilmente se percebe as consequências desta paragem, que vão das económicas, às sociais e obviamente às desportivas, e aqui apenas queria centrar a minha atenção nas desportivas e por inerência direta, as sociais. Foi, e está a ser para muitos, uma paragem longa e inédita.

Ficou um vazio muito grande no espaço e no tempo, que não se compadece com os processos de aprendizagem motora, com as metodologias de treino, nem com os processos de elevação e manutenção da condição física, com os processos táticos, além da componente psicológica da aprendizagem e do rendimento desportivo, que aqui são colocados em causa ou melhor, em pausa.

Aqui entra um dos atores mais importantes deste enredo, o aluno, o atleta. Toda esta envolvente foi criada para ele, para a sua evolução para a otimização do seu rendimento e, de um momento para o outro, tudo para. Houve e ainda há a necessidade de reinventar as atividades, de lhes dar cor e se possível aproximá-las o mais possível da realidade. Mas tal não é, nem foi possível. A especificidade da atividade física e o seu acompanhamento por profissionais da área, não se pode fazer por computador. Como dizia um treinador nosso conhecido, num contexto mais caricato, “isso só acontece na Playstation”!

A atividade física exige, orientação, repetição, correção, mais repetição, (…) na busca da aprendizagem e da evolução do aluno/atleta. Se a realidade não for esta, todo o processo fica comprometido.

Centrando-me agora mais sobre o atleta, aquele que se desloca diariamente ao clube para se treinar, juntamente com os seus colegas de equipa e respetivos treinadores, aquele que amanhã quer ser melhor do que é hoje. Para estes, a mudança de vida foi radical.

Além da escola que passou a ser “à distância”, o desporto também tentou encontrar algo parecido para ajudar a manter a condição física e alguma proximidade entre todos, com treinos através das plataformas digitais de comunicação. As rotinas e hábitos adquiridos ao longo de alguns anos, tão importante em contexto desportivo foram, nesta fase, postos de parte, pararam, passaram a não existir, desapareceram.

Todas estas mudanças na vida dos atletas e já agora dos seus pais e familiares, tão importantes no apoio dos seus e consequentemente no desenvolvimento desportivo, levou a novos estilos de vida, sempre na procura do bem-estar.

Anteriormente, grande parte desse bem-estar era encontrado no desporto, no treino, na aula, no convívio entre todos, nas competições, no alcançar de objetivos previamente traçados, uns de curto prazo outros, mais nobres, de longo prazo, que vinham a ser trabalhados há muitos anos, com muitas horas de treino na sua retaguarda e que foram colocados de lado de lado ou pelo menos pausados.

A questão que se coloca nesta fase de retoma envergonhada das atividades desportivas é saber se os seus intervenientes ainda sentem a mesma atração pela dinâmica de vida que tinham antes, que os levou a abdicar de algumas coisas, com as quais eles agora puderam experienciar e vivenciar, assim como os seus pais que viram a sua vida “facilitada”, menos dispersa, mais cómoda e com uma expressão familiar mais acentuada.

Claro que alguns pais desejam que o desporto volte rapidamente para “tirar” os filhos de casa e promover a sua saúde física e mental, mas certamente a deles também! Mas não é disto que estava a falar. Estava-me a referir mais aos atletas em formação, àqueles que ainda só têm objetivos de curto prazo, de facto, e que podem agora ceder à tentação de abandonar o desporto. Ainda não têm raízes fortes com a sua modalidade, ainda andam à procura do seu espaço, contexto esse que demora alguns anos e às vezes nem se chega a encontrar.

Apesar disso, havia a possibilidade de tentar, andava-se constantemente com aquele espírito de superação imbuído, que na maioria dos casos dava os seus dividendos. Lembro que destes sairão os atletas de exceção do futuro, pois os que já estão num patamar mais avançado não voltarão a ser novos e a garantir a continuidade das modalidades.

Os atletas que já passaram a sua formação inicial, que se encontram perfeitamente enquadrados com a modalidade, com objetivos de longo prazo definidos e com sérias possibilidades de os alcançar, tudo se torna mais fácil em termos anímicos. O prejuízo da paragem é maior, no que à “afinação” do seu estado de forma diz respeito, mas a motivação da retoma é outra.

Tendo em conta a resiliência que caracteriza estes atletas, desistir não costuma fazer parte do seu léxico.

Uma coisa é certa, a inércia da retoma é grande e será necessário um esforço adicional para se voltar aos patamares de rendimento pré-Covid-19, isto se a mesma começar entretanto e sem sobressaltos. Vamos crer que sim!

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